Onde cresce a esteva
– A luz do Alentejo
O movimento da mão
Ingrid Simons nasceu em 1976 em Eindhoven (Holanda) e terminou a seu curso de Pintura, Desenho e Artes Gráficas em 1999 na Akademie voor Kunst en Vormgeving, ’s-Hertogenbosch. Apaixonou-se pelo Alentejo em 2010 e desde então passa anualmente dois ou três meses numa residência artística, organizada pela Fundação OBRAS, perto de Estremoz. Lugares como a Pedreira dos Pássaros ou o Pego do Sino, as flores que nascem espontaneamente nos campos, o ritmo de vida mais tranquilo, não param de a impressionar e de a fazer voltar.
Ao longo destes anos Ingrid Simons tem-se embrenhado na paisagem alentejana, absorvido a sua luz, observando cambiantes, a aurora e o entardecer, os seus momentos preferidos, mas na maioria dos casos não reproduz o que vê mimeticamente.
Não representa a presença humana. Abstractiza a paisagem. É sobretudo o seu Alentejo interior, as cores da terra, do céu e da água, que nos dá a ver nesta Exposição partilhando, por vezes, o olhar sobre outras latitudes.
A força plástica das empastamentos revela os caminhos da mão na pintura e talvez os seus estados de alma. Pela mão dos Mestres Xico Tarefa e Luís Rosado, do Redondo, começou também a trabalhar na técnica da cerâmica tradicional, que podemos ver nesta exposição em alguns frutos dessa longa cooperação. Apresenta igualemente ao nosso olhar uma peça inspirada nas lucernas do Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo.
Num mundo de tantas incertezas, a contemplação de determinadas paisagens e das suas representações continua a ser um momento apaziguador, e/ou pode inspirar o instinto de preservação e o ativismo ambiental e social tão necessário nos dias de hoje.
Uma proposta à consideração do seu olhar, emoção e pensamento.
Sandra Leandro
Directora do Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo
“Onde cresce a esteva – A luz do Alentejo”
Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo, Évora (Portugal)
22 abril – 28 Maio 2023
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Photo: Rob Monaghan
A Terra da Pintora da Terra
Nova meditação sobre o trabalho da Pintora Ingrid Simons
Num pequeno texto anterior, que deixei inacabado, tentei, a propósito da obra da pintora Ingrid Simons, esclarecer a relação que por vezes se estabelece entre um artista e um sítio particular no mundo. A ideia que me pareceu mais importante, depois de constatar a potência criativa dessa relação, foi a reciprocidade, nada intuitiva, entre a criação do criador pelo sítio (o país faz o artista) e a “criação” do país pelo artista (o artista faz o país). Longe duma concepção “nativista” essa criação recíproca do humano pelo local no mundo e a “criação” do local pelo artista não me apareceu reservada a quem nasceu e foi educado nesse local, antes sendo possível e ilustrado por numerosos exemplos que artistas nascidos em terras distantes sejam absorvidos por um país que os transforma ao mesmo tempo que esse país é também por eles transformado. A constatação primeira foi a de que a ideia, imagem e memória que certos “países” (locais, cidades, regiões) têm hoje para os nossos contemporâneos são inseparáveis do trabalho que as suas obras efectuaram nas nossas representações desses espaços. O que poderia parecer apenas uma “maneira de falar” revela-se como realidade material quando nos debruçamos sobre algum dos numerosos exemplos desse facto. Atente-se apenas no que evoca presentemente a “Provença”, o “Pays d’Arles”, e a que ponto é impossível evitar o efeito da obra de Van Gogh. na sua representação : outra Provença. Sublinho que os escritores têm esse mesmo poder. Ainda a Provença: o “pays” que criou Jean Giono, não foi, depois e para sempre por ele criado? A essa ideia que desenvolvi anteriormente vejo que é hoje necessário acrescentar duas novas perspectivas.
Esta primeira perspectiva refere-se à noção de “país”, enquanto a segunda inclui a reflexão sobre a própria consistência da obra, os seus caracteres formais e materiais.
O “país” a que me referia no texto “O país da pintora do país” poderia parecer algo genérico, um vasto espaço encarado de longe, um continente, um país (Estado), como a França ou Portugal. O texto reduzia, creio, a ambiguidade ao concentrar a atenção no Alentejo, ponto restrito de ligação, no espaço e no tempo entre a pintora e o sítio. Esse sítio era um “païs” como dizem os Occitanos, aldeia ou a pequena região, e não um espaço nacional, e para Ingrid, de novo, o Alentejo. Importa, para o que segue, saber que esse “païs” é o que os portugueses chamam “a terra”, a minha terra”, aquela a que se volta sempre, de todos os exílios, internos (ah, a margem Sul do Tejo) ou longínquos. Importa, porque é a noção de terra, com todas as suas valenças, que agora me guia. Temos pela frente a “terra da pintora da terra“, a terra, neste caso, de Ingrid Simmons. Ao passar da relação quase visceral da pintora com este espaço natural, humano, imaginário, que é o Alentejo, próximo, imediato, para a meditação sobre as obras que dela resultam, impõe-se como uma evidência a noção de uma viagem da artista, que a leva de uma certa figuração – paisagens mais ou menos assombradas de florestas negras e lagos do Norte, atmosferas revoltas, turbulências – para um modo de expressão que, ao abandonar a forma identificável de coisas do mundo, aceita um combate com a matéria da própria cor: tinta, pintura, pasta. Em vez de fluidez e transparência, apodera-se da pintora a massa maleável das tintas, a espessura do corpo das tintas. Matéria: o que resiste, como a terra debaixo dos nossos pés, como o barro apertado nas mãos e nos dedos do oleiro. Emerge na minha memória a bela lembrança das leituras de juventude, e o encontro com Gaston Bachelard, há mais de meio-século. A minha geração, apaixonada pela ciência, descobria a maliciosa exigência do filósofo que, tendo desenvolvido a mais perfeita genealogia da “Formação do Espírito Científico” e a mais convincente, rigorosa e tolerante teoria do “Racionalismo aplicado“, cultivava também uma meditação sobre as relações intuitivas e sensuais (que ele chamava “rêveries”e explanou em quatro livros) dos Humanos com o mundo, relações que organizam desde os tempos mais remotos o imaginário humano em torno dos quatro elementos da Natureza: Fogo, Ar, Água, Terra.
Ora defendia Bachelard duas teses conjuntas: que a razão e a imaginação não são dois compartimentos estanques no nosso espírito; e que a imaginação se exerce segundo duas direcções diferentes: imaginação formal e imaginação material. A primeira tese era fácil de demonstrar, porque todas as hipóteses científicas são especulações, são respostas provisórias a perguntas bem feitas. O cientista imagina soluções hipotéticas ao problema que constrói, mesmo que muitas delas venham a ser, como é sempre o caso, rejeitadas. Mas o cientista que não é imaginativo, nunca vai criar a hipótese que, aparentemente por milagre, resolve a questão. A segunda tese é mais delicada e interessa-nos especialmente aqui. A imaginação formal parte das manifestações externas – dos efeitos – das forças subjacentes à existência dos corpos materiais: entre gravidade e capilaridade, entre enraizamento e resistência aos fenómenos meteorológicos, a árvore nasce das forças que guiam o crescimento celular e as suas divisões em ramos, raminhos e folhas:. Ela ali está, formada, desdobrada na sua plenitude; “Árvore”. Em número, a sua reunião em multidões, claras, sombrias, estranhas, medonhas, acolhedoras: a poderosa “Floresta”.
Acompanhemos Bachelard. A “imaginação formal” medita e cria, pois, a partir das formas do visível: a forma duma flor, duma folha, duma árvore… ou dum rochedo. Essas formas são o produto das “forças materiais”, os quatro elementos (Fogo, Ar, Água, Terra) e surgem pela sua combinação subtil, sempre diferente. É esta modalidade imaginativa que está na origem de todas as tentativas de expressão nas artes plásticas, que com alguma justeza designamos como “figurativas”. Guia-as o fascínio pela forma enquanto efeito dado, já presente, resultante do jogo das forças subjacentes.
A “imaginação material” medita, ela, a partir da exploração das propriedades interiores de cada um dos elementos, tais como eles sustentam e estruturam a nossa vida psíquica e, correlativamente, produzem as formas exteriores das coisas do mundo. O caminho da criação, que é uma modalidade do desejo do mundo, passa pela imaginação que guia o trabalho. “Só desejamos bem o que ricamente imaginamos, o que cobrimos com as belezas projectadas. Assim, o trabalho enérgico de matérias duras e pastas pacientemente amassadas é animado pelas belezas prometidas.” (La terre et les rêveries de la volonté, Paris, José Corti, 1992. p. 23 ).
No trabalho de Ingrid Simons, assisti, como todos os que, maravilhados, o foram testemunhando, à passagem progressiva da pintura guiada pela imaginação formal para a realização de objectos construídos a partir de massas que ganhavam em espessura, que o suporte, tela ou papel cada vez mais dificilmente suporta, aguenta. A massa, pasta, maleável e resistente, aproxima-se pouco a pouco de uma massa semelhante à do pão do padeiro, ou ao barro – à terra – do oleiro. Bachelard medita sobre a diferença entre as matérias duras, que trabalha o escultor sobre pedra ou sobre ferro, e as matérias moles, massas, pastas, terras dúcteis, vagarosas, que preservam, de uma maneira especial, a sua rebeldia. Essas massas são o princípio e o símbolo do Elemento Terra. À medida que Ingrid se embrenha nas possibilidades materiais oferecidas pelo material, desvanece-se a forma, revelam-se as virtualidades plásticas das tintas pesadas, das acumulações, sobreposições, cortes, arrastamentos. A própria cor torna-se minimal, tendendo para um quase monocromatismo (azul, negro), revelando que a intenção da pintora é levar o amalgamar – o amassar – da pasta até ao ponto onde se revelam as propriedades interiores da pasta.
A Terra da pintora da Terra tinha que extravasar das três dimensões reduzidas, “constrangidas” que o objecto “quadro” permite, ao apresentar-se, ainda que falsamente, como um objecto a duas dimensões. A olaria era uma consequência necessária, o trabalho da espátula e da trincha desemboca nas mãos da oleira. Processo essencialmente feminino, pela natureza da matéria e das suas virtudes. Decerto, no mole, no dúctil, no variável, na matéria ela própria, Bachelard vê o feminino, e vê-o ainda no nascimento da obra de terra contida, conduzida, acarinhada pelas duas mãos. Processo que atraiu a Ingrid como consequência lógica do seu trabalho sobre a matéria “pasta-pintura”. Decerto, Bachelard bem sabe que os padeiros, tornados profissionais, são muitas vezes homens, mas a confecção do pão foi, através dos milénios tarefa feminina. O mesmo aconteceu também com a olaria: trabalho com a matéria dócil, a Terra, exercício feminino. Daí que a própria emergência da forma na olaria seja mais próxima da expressão das propriedades intrínsecas da matéria-terra do que da obtenção puramente formal. “Terre-cuite”, “terracotta” as línguas vão mantendo viva a origem da matéria plástica. Terra.
Ao evoluir das modalidades da imaginação formal que produz a figuração, sonho a partir das formas visíveis já dadas, para a imaginação material, que explora a consistência íntima do elemento material em si, passa a artista para a meditação activa, gestual, sobre as forças contidas na matéria, antes de toda a forma, antes que qualquer forma surja. Potência da Terra. Confrontada, não com a proliferação das formas existentes e a sua beleza, mas com a matéria que as contém todas virtualmente, a pintora confronta-se com o processo mimético que Bachelard chega a encarar, ao designar a matéria enquanto espelho “energético”. À vontade da artista, a massa opõe não apenas a sua especial amálgama de resistência e oferenda, mas um verdadeiro diálogo com as forças contidas, escondidas à nossa vista, na matéria, que se opõem e ligam com as forças que secretamente habitam a artista.
Da paisagem e das formas à própria matéria, assim caminha Ingrid Simons. Encontro com a Terra da pintora da Terra.
José Rodrigues dos Santos
Évora, Maio de 2024.
Para a Ingrid.
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Direção-Geral do Património Cultural / DGPC
22.04.2023
«Desejo desconstruir a paisagem e reconstruir uma nova realidade física que parte da minha experiência pessoal com a terra e com a sua essência. Para mim, pintar é uma experiência eminentemente física, um ato de equilíbrio entre esculpir com tinta a óleo e dissolver camadas de tinta – uma montagem e desmontagem de estruturas e padrões emergentes dessa dissolução» – São palavras de Ingrid Simons. Ao longo destes anos a Artista tem-se embrenhado na paisagem alentejana, absorvido a sua luz, observando cambiantes, a aurora e o entardecer, os seus momentos preferidos, mas na maioria dos casos não reproduz o que vê mimeticamente. Não representa a presença humana. Num mundo com tantas incertezas, a contemplação de determinadas paisagens e das suas representações continua a ser um momento apaziguador, e/ou pode inspirar o instinto de preservação e o activismo ambiental e social tão necessário nos dias de hoje. Neste caso as fotografias não fazem o mínimo jus à ao trabalhos que se apresentam nesta sala. A exposição ficará à consideração do seu olhar, emoção e pensamento até dia 28 de Maio.
Sandra Leandro
Directora Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo
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Texto de Ron Dirven (2018) do livro : “Het Licht & Het Duister”, Ingrid Simons
Ingrid Simons, artista em Residência de Van Gogh
Prefácio
A boa pintura não consiste em usar uma grande quantidade de tinta, mas por vezes, para dar verdadeira força à terra, para fazer um céu brilhante, não nos devemos preocupar com um tubo de tinta a mais ou a menos. Às vezes o motivo requer uma fina maneira de pintar, outras, o material, a natureza das coisas, revela ser evidente que necessita de ‘impasto’.
[Vincent aan Theo van Gogh, 3 de Setembro de 1882]
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The Earth Painter’s Land
Ingrid Simons: A new meditation on her work
In a previous essay, I tried to clarify the relationship that is sometimes established between an artist and a particular place in the world, regarding the work of Ingrid Simmons. Having observed this relationship’s creative power, I was struck by an idea of mutuality, not of intuition, between a place’s creation of a painter (a place makes a painter) and a painter’s “creation” of a place (a painter makes a place). Far from being a “nativist” concept, this reciprocal creation of the person by the place in the world and the “creation” of the place by the artist did not seem to me to be reserved for those born and educated in that place. On the contrary, it was possible, and there are numerous examples to prove it, for artists born in distant countries to be absorbed by a country that transforms them, just as that country is transformed by them. The first insight was that the idea, image, and memory that certain “countries” (places, cities, regions) have today for our contemporaries, including the inhabitants of those places, are inseparable from the work that their works have done on our representations of those spaces. If we look at one of the many examples of this fact, what may seem to be merely a “way of speaking” turns out to be a material reality. Just look at what is currently evoked by “Provence”, the “Pays d’Arles”, and how impossible it is to avoid the effect of Van Gogh’s work in its representation: a different Provence appears. I would like to emphasise that writers have the same power. Still in the Provence region: wasn’t the “pays” that Jean Giono created, then and forever created by him? To this idea, which I’ve developed before, I see that it’s now necessary to add a second, which involves reflecting on the very consistency of the work, its formal and material characteristics.
The “country” to which I referred in the text focused my attention on the Alentejo. It was a limited point of connection, in space and time, between the painter and the place. This place was a “païs”, as the Occitanians say, a village or a small region, a “petite patrie”. It was not a national space, as for Ingrid it was the Alentejo. It is important to know, for the sake of what is to follow, that this ‘país’ is what the Portuguese call “the country”, “my country”, the one to which you always return, from any exile, whether internal (or external). It is important because it is the idea of land, with all its values, that guides me now. We have before us the “the earth painter’s land”, in this case Ingrid Simons. From the artist’s intimate relationship with this natural, human, imagined space, which is the Alentejo, to her reflections on the resulting works, the idea of the artist’s formal journey emerges, leading her from a particular figurative style – more or less spooky landscapes of black forests and northern lakes, rebellious atmospheres, upheavals – to a mode of expression that, abandoning the recognisable form of the things of the world, accepts a struggle with the very matter of colour: Paint, paint, paste. Instead of fluidity and transparency, the painter seizes the malleable mass of colour in the thickness of the material body. Matter: that which resists, like the earth beneath our feet, like the clay pressed in the potter’s hands and fingers. I recall the beautiful memory of reading in my youth and meeting Gaston Bachelard more than half a century ago. My generation, passionate about science, discovered the wicked demands of the philosopher who, after developing the most complete genealogy of The Formation of the Scientific Mind, also cultivated a meditation on man’s intuitive and sensual relations (which he called “rêveries” and explained in four books) with the world. These relations have organised the human imagination since antiquity around the four elements of nature: Fire, Air, Water, and Earth.
Bachelard defended two theses together: that reason and imagination are not two watertight compartments in our spirit; and that imagination is exercised in two different directions: formal imagination and material imagination. The formal imagination starts from the external manifestations – the effects – of the forces underlying the existence of material bodies: between gravity and capillarity, between rooting and resistance to weather phenomena, the tree is born from the forces that guide cell growth and its divisions into branches, twigs, and leaves. It is there, formed, unfolded in its fullness and in its evidence; “Tree”. Numerous, it gathers in crowds, clear, dark, strange, frightening, inviting: the mighty “Forest”.
Let’s follow Bachelard. The “formal imagination” meditates and creates, therefore, from the already given forms of the visible: the form of a flower, a leaf, a tree… or a rock. These forms are the product of the “material forces”, the four elements (fire, air, water, earth). They appear through their subtle combination, always different. It is this imaginative mode that is at the origin of all the attempts at expression in the plastic arts, which we can call, with some justification, “figurative”. They are guided by the fascination of the form as a given effect that is already present in the world and that results from the play of the underlying forces.
The “material imagination” meditates on exploring the inner qualities of each element as it sustains and structures our psychic life and correlatively produces the outer forms of things in the world. The path of creativity, the modality of longing for the world, passes through the imagination which guides the work. “We desire well only that which we imagine abundantly that which we cover with projected beauties. Thus, the energetic work of hard materials and patiently kneaded pastes is animated by promised beauties”. (La terre et les rêveries de la volonté, Paris, José Corti, 1992. p. 23).
In the work of Ingrid Simons, I have witnessed, as have all those who have been amazed and witnessed, the gradual transition from painting guided by formal imagination to the realisation of objects made of masses that have become thicker and thicker, so that the support, the canvas, or the paper, is increasingly difficult to hold, almost impossible to bear. The mass, paste, malleable and resistant, gradually becomes a dough like the bread of the baker or the clay, the earth, of the potter. Bachelard meditates on the difference between hard materials, which the sculptor works on stone or iron, and soft materials, masses, pastes, and slow, ductile earth, which preserve their rebelliousness in a special way. These masses are the beginning and the symbol of the Earth element. As Ingrid immerses herself in the material possibilities offered by the material, the form fades away, the plastic virtuality of heavy paints, of accumulations, overlaps, cuts, drags are revealed. Colour itself becomes minimal, tending towards an almost monochrome (blue, black, here and there beige-salmon), revealing that the painter’s intention is to bring the amalgamation – the kneading – of the paste to the point where the inner properties of the paste are revealed.
The Earth Painter’s Land had to go beyond the three reduced, “constrained” dimensions that the object “painting” allows by presenting itself, albeit falsely, as a two-dimensional object. Pottery was a necessary consequence, the work of the trowel and the carving knife leading to the hands of the potter. An essentially feminine process, by the very nature of the material and its virtues. Certainly, Bachelard sees the feminine in the softness, in the malleability, in the variable, in matter itself, and he also sees it in the birth of the work of earth, contained, guided, caressed by two hands. A process that attracted Ingrid as a logical consequence of her work on the material “paste-paint”. Of course, Bachelard knows very well that professional bakers are often male, but making bread has been a female activity for thousands of years. The same goes for pottery: working with the malleable material, the earth, is a feminine activity. Therefore, creating pottery is more about expressing the intrinsic qualities of the earthen material than a purely formal achievement. The languages “Terre-cuite” and “terracotta” preserve the origin of plastic matter. The Earth.
Moving from the modalities of the formal imagination, which produces figuration, a dream based on visible forms already given, to the material imagination, which explores the intimate consistency of the material element itself, the artist moves on to an active, gestural meditation on the forces contained in matter, before any form, before any form emerges. The power of the earth. The painter is confronted with the mimetic process that Bachelard envisages, referring to matter as an “energetic” mirror, not with the proliferation of existing forms and their beauty, but with the matter that virtually contains them all. To the artist, the mass is not only a particular amalgam of resistance and offer, but also a true dialogue with the forces contained in matter, hidden from our view, which confront and connect with the forces that secretly inhabit the artist.
Ingrid Simons moves from the landscape, viewed from afar and from the outside, and from existing forms to the possibilities of matter itself. The Earth painter’s encounter with the Land.
José Rodrigues dos Santos
Évora, October 2021, May 2022.
For Ingrid.
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Ingrid Simons
Zundert em cores quentes
Foi evidente que Ingrid Simons, durante sua residência artística na casa de Van Gogh em setembro e outubro de 2017, iniciou uma busca pela paisagem de Van Gogh. Ambos os artistas têm fortes ligações à natureza.
Vincent cresceu num ambiente de vastas áreas de florestas e urze. Deambulou muitas vezes por Pannenhoef, De Moeren e pelo Oude Buisse Heide, e isso marcou-o profundamente. Mais tarde, escreve à sua mãe sobre as paisagens da Provence, ‘como se tivessem sido pintadas, por exemplo, em Zundert ou Calmpthout’.
Nos dias de hoje a natureza em redor da cidade de Zundert é ainda tão bela quanto no tempo de Van Gogh. E é claro que Ingrid Simons escolheu esta paisagem como motivo de inspiração para as pinturas que fez durante a sua residência no estúdio da casa de Van Gogh. De que é exemplo o belo quadro Jaan Dikke Ven sobre o Oude Buisse Heide, rodeado pela floresta, com céus nublados e ameaçadores acima desta.
Se procurou os motivos e a inspiração em Van Gogh, Ingrid utiliza a sua própria paleta de cores e a sua avultada forma de aplicação da tinta na execução do seu trabalho. A título de exemplo, Ingrid usa uma cor muito específica que é uma mistura de laranja, creme e cor-de-rosa no céu e na água. O brilho quente desta cor transmite um efeito ensolarado, reforçado pelo contraste com o cinza das nuvens. Sobre esta dá ao escuro, quase negro, toques de verde fresco nos seus bosques, num ênfase à paisagem, o que transmite, no todo, uma atmosfera do sul. Como se as suas paisagens não fossem pintadas em Brabant mas antes, por exemplo, em Portugal.
O calor nas suas telas irradiam um temperamento que Van Gogh foi procurar (bem longe) no Sul. Ingrid vai buscá-lo para a cinzenta Brabant. Com ela o sol brilha mais perto.
O oposto das paisagens ensolaradas de Simons são os seus noturnos, com agudo contraste entre os pretos e os brancos, alternados com um azul claro e intenso. Onde Van Gogh escolhe um profundo azul ultramarino nas suas telas noturnas, Simons prefere um mais claro azul cobalto. Como um brilho de lua cheia numa noite quente de verão. Mesmo em tons escuros, a sua paleta irradia calor e otimismo.
Então há o impasto. Também aqui Van Gogh é uma inspiração. Vincent às vezes comprimia a tinta diretamente do tubo para a tela. Mas Simons vai mais longe. Os impastos são por vezes tão espessos que surgem relevos, e há muitas vezes escorrimento da tinta. Estes reforçam a plasticidade e a expressividade. Conseguimos sentir o crescimento da vegetação e experimentar a profundidade nas suas paisagens. A natureza aparentemente calma na região de nascimento de Van Gogh é, nos quadros de Ingrid, transformada num mundo excitante e temperamental. Desta forma, ela acrescentou interesse à paisagem de Zundert.
Ingrid Simons doou a pintura panorâmica da Jaan Dikke Ven na Oude Buisse Heide à colecção do museu Van GoghHuis. Por isso, ela ficará para sempre contectada com Zundert. Também por efeito da presente publicação, que apenas foi possível através de crowdfunding entre os admiradores do seu trabalho. Ingrid escolhe mostrar, não só os resultados finais da sua residência, mas também o processo da mesma. Os seus estudos preparatórios, fotografias e fotos de estúdio formam um género de diário do seu tempo em Zundert. Assim, conseguimos ter uma empatia ainda mais intensa com a artista. De um modo mais ou menos semelhante como aprendemos sobre o trabalho de Van Gogh através das extensas cartas que escrevia sobre as suas reflexões e desafios.
Graças a esta publicação, a residência de Simons continua a ecoar em Zundert. Continua também através do trabalho de litografia e de serigrafia feito posteriormente com base na memória. Juntos, eles são a prova tangível que, para usar as palavras de Vincent, Zundert não sairá do seu coração. Isso é exatamente o que nós pretendemos atingir com o nosso programa de residência. Que o Zundert de Van Gogh possa inspirar a arte do futuro permanentemente.
Ron Dirven
Diretor-Curador
Vincent van GoghHuis
Traduzão Carlos Miguel Alvez
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Paraiso Escondido (2017)
Galeria Municipal D. Dinis, Museu Municipal Prof. J. Vermelho, Estremoz (Portugal)

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Parte do texto para a exposição do grupo “Terra, luz, ar e água”
Museum van Bommel van Dam, Venlo, 2015-2016
Rick Vercauteren
“… o Museu van Bommel van Dam comprou em 2009 “Silentio Noctis VI”. Ela pinta aspero, de cabeća para baixo, e faz todos os tipos de movimentos em outras direćões. A técnica de gotejamento cria tensão, energia. O fundo preto lembra o Armando.
Os dois quadros em cor cobre (ouro) a direita são : tonais, quase monocromáticas, como a paisagem seca de Portugal que as vezes vemos no verão português. “Portuguese Suite Into Another Landscape” é uma escolha entre cem pećas. Elas sào ficćão, não realidade, um experimento, e lembram Bert Loerakker. Quando você está no meio, você vê como elas se mudam de concreto, até etérico.
Quadros pequenos com grande expressividade, ecos de obras de Jan van Duijnhoven.”
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“Numa danca selvagem” (2013)
Jos Wilbrink
Quem quer decrever a pessao Ingrid Simons, fala imediatemente da sua curiosidade espontanae edesinibida por tudo o que se passa ou existe a volta dela. A sua atitude otimista perante a vida e o seu interesse inato por mundos desconhecidos e culturas estrangeiras constituem uma dualidade fertil para criar grandes proezes artisticas. Juntamos-lhes a qualidade acrescida de uma mentalidade empreendedora intencional, uma qualidade de importancia vital para os artistas desta era, e a imagem dela esta completa.
Tive o privilegio de poer seguir a evolucao da obra da Ingrid desde o momento em que deixou a Academia de Artes Plasticas de ‘s-Hertogenbosch e iniciou a sua atividade de artista plastica livre. Pouco antes da passagem do milenio.
Era notavel que ela, desde o inicio, se esforcou imenso para dar uma forma profissional a essa atividade, aconselhando-se com profissionais e adquirindo conhecimentos adicionais a nivel das competencias profissionais indispensaveis para esta linda profissao.
Mais notaveis eram as qualidades a nivel de pintura que revelava possuir, logo apos a conclusao sua formacao. Nesses primeiros anos, a Ingrid pinta, com uma palette de cores reduzida, o ambiente em que se encontra. Primeiro, interiores simples, mais tarde tambem ambientes de exterior.
Ambientes domesticos em que uma cadeira com uma peca de roupa pousada desempenha o papel principal mas sem as pessoas que lhes estao associades. Registos momentaneos, muito proximos da realidade. Mais tarde, abandona a intimidade dos espacos e sai mais, procurando ambientes urbanos e sitios naturais e florestais. Por vezes com um ser humano. Ambientes parados representados na tela com grande precisao e pinceladas grossas. Nao sao imitacoes mas antes impressoes da realidade. Interpretacoes diretas que pretendem segurar um momento de vivencia ou de ambiente.
O que notamos e que ela se mantem sempre proxima de objeto, quer no sentido literal em termos de distancia, quer no sentido figurado em termos de materializacao e experssao. Com a menor dificuldade pinta o que lhe fascina nesse momento, sempre naquela caligrafia reconhecivel, com toques de tinta fluentes e com tons de preto e cor de rosa contrastantes.
Depois de ter pesquisado, nesses primeiros anos, o mundo artistico do seu pais natal e ter encontrado o eu lugar, comeca a crescer o desejo de ir, literalemente, mais longe. Primeiro ficando por perto, na Belgica e na Alemanha, rumando depois cada vez mais para o sul. Com uma estadia em Mas de Charrou reclama definitivamente a paisagem como companheiro no seu casamento com a arte. O carater paisagista da regiao florestal do Sul de Franca e uma revelacao que se exprime diretamente na sua obra. Ela descobre a vastidao do verde e anexa a Natureza ate ao ponto de esta ser visivel e tangivel. Pela primeira vez, o hoizonte determina o seu campo de trabalho. Uma experienca que se desenvolve em pleno durante a sua primeira estadia na residencia de artistas OBRAS em Evoramonte, em Portugal.
Debaixo das asas protetoras da Fundacao OBRAS, um refugio internacional e interdisciplinar de artistas, da iniciativa dos meus amigos apaixonados Carolien van der Laan e Ludger van der Eeerden, ela conseguiu fazer florescer essa evolucao. Entretanto, a Ingrid esteve tres vezes na Fundacao, o que resultou em grandes ateracoes na sua obras.
Desde ha seculos, as artistas partem para locais distances para se deixarem inspirar por culturas estrangeiras e paisagens exoticas. Proporciona-lhes o espaco para darem livre curso ao seu espirito e entregarem-se a uma medida de forca imprevisivel com o pais novo.
A Ingrid continua essa tradicao de ha longa data, nos seus propios termos. O seu metodo impressionista de trabalhar demonstra, por vezes, o respeito pelas impressoes impressionantes do ar, da terra e da luz e, a seguir, a leveza agradavel de uma boa conversa. Imagens sem mensagem, sao o que sao.
O interior desapereceu por completo da sua obra e deu lugar a eiqueza multifacetada da Natureza em todas as suas vertentes. Os pormenores passam cada vez mais para o fundo e com a introducao de novas cores exprime com mais forca a forma de apresentar o ambiente. Os “azuis” e, em especial, o Viridian azul esverdeado reforcam a vastidao amigavel do espaco e acentua a vegetacao intocada e colorida. Quando quer registar o calor abrasador do clima portugues, a imagem torna-se mais transparante e menos pesada. A obra adquire uma carga quase mistica que encontramos mais vezes na sua obra, noutras graduacoes. Como na tela com uma capela solitaris nos montes em redor da Herdade da Marmeleira, ou no quadro maritimo romantico no Algarve com um farol solitario como ultimo sinal antes do inicio do fim. Os titulos da sua obra refletem diretamente o foco da sua atencao : a noite, o silencio, a luz…
A evolucao gradual da sua pintura contrasta com a entrada subita da ceramica no campo de trabalho da artista. Parece que o regesso repetido para o pais novo, a intimidade com as pessoas com quem trava conhecimento sao motivo para reformular os seus limites artisticos. A Ingrid experimenta a vontade com a pintura de azulejos feitos a mae, misturando as tradicoes portuguesas com as qualidades da faianca de Delft. Os desenhos pitorescos em azul e, por vezes, em preto sao testemunha de uma atitude aberta perante o objeto e a regiao onde e convidada. Surpreendentes sao as clareiras na pintura que acentuam a maneira direta de trabalhar e iluminam a imagem de uma forma brincalhona.
Em Redondo, encontra o Mestre Xico, artista em ceramica, que lhe ensina as subtilezas do ificio e a introduz na composicao e aplicacao dos pigmentos tipicamente portugueses. Na sua ultima visita, tambem descobre as possibilidades especiais das jarras que a cultura portuguesa lhe aprenta : um primeiro exercicio na aplicacao de possibilidades tridimensionais.
O que caracteriza a Ingrid e que e extremamente sensivel nos seus contactos e que encontra em tudo um motivo para fazer algo mais. De tudo o que lhe cruzar o caminho, consegue expor a alma e torna-la acessivel aos outros. Ai, a sua paixao e a sua missao juntam-se.
A Ingrid toma muito do ambiente, mas tambem da muito. A OBRAS introduziu-a numa fase nova da sua actividade artistica e a cultura portuguesa enriqueceu-se com os multiplos resultados impressionantes da sua estadia. Juntamente com a Carlien e o Ludger, compilou duas vezes uma exposicao impressionante e, com a mesma naturalidade, realizou apresentacoes para o publico internacional de artistas que costuma hospedar-se na OBRAS. Como mais ninguem representa o exito do objetivo ideal que ambos os promotores tem em vista.
Em suma, podemos concluir que, para a Ingrid, a OBRAS nao e nenhum refugio turistico, mas antes uma base segura a partir donde conquista, pouco a pouco, o novo mundo, como um senhor da guerra. A busca de momentos valiosos em que a procura e a oferta se juntam e se tornam pilares no seu plano artistico. Onde a necessidade constante de desafios sossega e onde o conquistador e o mundo envolvente fazem as pazes. Se a arte alguma vez fizer sentido, o significado encontra-se nessa ambicao de chegar a um acordo com as proezas da Criacao.
A Ingrid Simons e a prova disso, vezes sem conta. Numa danca selvagem.
Jos Wilbrink
Presidente da Fundacao OBRAS
Proviniente do livro “So os caminhos eram meus, Ingrid Simons”
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Texto no brochure no exposicao de Castelo de Evoramonte “Jardim Secreto” (2013)
“Portugal e a Musa inspiradora do presente trabalho de Ingrid Simons. E aqui que encontra espaco de concentracao. Presente, passado e futuro cruzam-se. aqui experimenta uma paleta de cores diferente, trabalha outra luz e explora a ceramica.
Aqui compreende que a arte nao se resume a talento e “tempestades cerebrais”, mas e tambem percepcao e perseveranca.
Aqui nota que a vida nao se resume a successos e fracassos, que emocao e racionalidade sao complementares e que a felicidade e um resultado e nao um objectivo.
Esta sua Musa habita um paraiso secreto, algures em Portugal.
Geralmente, “focus” e “especializacao” sao entendidos como condicao para o sucesso. Ingrid Simons mostra que as coisas podem ser diferentes. Apesar de ser uma pintora dotada, as suas incursoes pela fotografia, serigrafia, gravura e ceramica denotam igualmente uma enorme capacidade criativa.
Recentemente explorou as possibilidades da ceramica como suporte para a sua pintura. O ponto de partida foi a tradicional azulejaria Portuguesa e os Delfts Blauw (azuis de Delft) que a estimularam. Estudou a historia e as technocas de producao do azulejo, procurou ajuda de um mestre oleiro Portugues e foi trabalhar com conviccao e ambicao. Os primeiros resultados sao promissores e parecem encontrar clientela.
Tal como os meios atraves dos quais escolhe expressar-se, tambem os temas da sua obra mudam com alguma frequencia. Interiores de igrejas, paisagens, marinhas ou naturezas mortas fazem parte do seu universo criativo que e sempre semi-figurativo.
Decida-se ainda a equitacao onde e uma cavaleira de adestramento talentosa, e professora de danca kizomba, estudante de Portugues e assessora de technicas de impressao.
Azulejo
Ingrid Simons aprecia a tradicao, mas tem uma paixao particular pela descoberta. Na residencia artistica realizada na Fundacao OBRAS em 2010, decidiu investigar sobre a azulejaria portuguesa que sempre a fascinara.
Notou entao que, pesar de estarem presentes na arquitectura, pelo menos desde o seculo XV, foi a partir do seculo XVII que os grandes paineis de azulejos (de padrao ou historiados) passaram a ser elementos frequentes na decoracao parietal em Portugal. Nos seculos XVIII e XIX, os azulejos ornamentavam as paredes dos mosteiros, palacios, casas nobres e burguesas, mas tambem jardimns e suas casas de fresco. O seculo XVIII preferiu os motivos azuis e brancos e o azulejo retratava paisagens, cenas religiosas, arquitecturas, motivos florais e vegetalistas, etc.
Frequentemente, os paineis de azulejo foram cobrir revestimentos decorativos anteriores e e habitual haver igrejas cobertas de azulejos onde antes havia pintura mural.
Ingrid decide experimentar pintar sobre este novo suporte – o barro. Comeca pela traditional paisagem a azul e branco e, tal como as azulejos que outrora foram colocados sobre pintura mural, os pequenos quadrados de Ingrid sugerem algo para alem da materia que os constitui.
O resultado final do seu trabalho diverge em estilo e significado dos azulejos tradicionais.
Os Azulejos de Ingrid nao sao didaticos ou decorativos. Como nas suas pinturas, ela cria atmosferas duais. Um certo Romantismo fica-nos do primeiro contacto com a obra, mas depois ha uma nota de desconforto. estes trabalhos sao contemplativos e intimos, mas tambem dramaticos e tensos.”
Ana Pais (DRCALEN), Ludger van der Eerden & Carolien van der Laan (Fundacao OBRAS)
2013
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“Sonho de uma noite de verao” (2011)
Ingrid Simons
No ano passado apaixonei-me por Portugal, este ano parece-me que esse amor está para durar.
No ano passado recebi um convite para trabalhar durante algum tempo em Portugal, onde eu nunca tinha estado.
Encontrei em Portugal aquela luz característica, forte e bela. A mesma luz que eu, regra geral, exacerbaria nas minhas pinturas para alcançar o resultado pretendido. Também encontrei as sombras negras compridas que eu já usava nas minhas pinturas, mas que aqui vi ao vivo.
O Ribeiro São Brás, que por aqui passa, deu início a uma nova orientação no meu trabalho. Pela primeira vez pintei apenas a verde e azul. Devido à referência direta que o verde constitui da paisagem (a erva, as árvores) e o azul do ribeiro (água), pude traduzir este tema de uma forma livre e abstrata. No meu trabalho sempre procurei analisar as fronteiras entre a imagem e a tinta, mas nestas pinturas procuro mais “as flores mais belas que crescem à beira do abismo”.
Na Fundação OBRAS encontrei um lugar com as condições perfeitas para eu poder trabalhar de forma excelente. É verdadeiramente fantástico passar dias inteiros naquele ateliê a pintar.
Passear por entre esta maravilhosa paisagem, tirar fotografias e sentir a inspiração vinda destas paisagens com a possibilidade de, logo de seguida, poder converter todas as impressões e registá-las em tinta. Para mim, é muito importante ter podido concentrar-me durante um mês por completo no meu trabalho, pois só assim os processos podem ser acelerados e aprofundados.
Tenho igualmente de mencionar que nestes dois anos viajei sozinha (na companhia dos meus quadros) para Portugal. No ano passado trouxe tanto os quadros para a exposição a solo “A luz de lua” em Évora, como também todas as telas para o período de trabalho, as quais tinham de ser transportadas na horizontal devido às tintas de óleo pastosas e de secagem lenta.
É uma longa viagem de carro e, para mim, funciona como uma espécie de peregrinação, na qual cresço como pessoa e como artista plástica. Durante uma viagem assim tão comprida temos tempo para por a cabeça em ordem, pensar nas experiências, inspirações, trabalho, além de podermos apreciar tantas coisas bonitas pelo caminho.
A completa mudança de ambiente, das planícies características dos Países Baixos, às zonas urbanas em volta de Paris e, depois de passar Orleães, a planície com os campos estendidos, até aos montes perto de Biarritz e a costa rochosa e ventosa, até às colinas perto de San Sebastiàn, até às vastas paisagens no sul de Espanha e os enormes calhaus brancos, quase mágicos, ao entrar em Portugal.
No ano passado, quando voltei para os Países Baixos de carro, tive a forte sensação de que tinha de regressar a Portugal, de que ainda mal tinha começado… Prometi a mim mesma que, se um mês depois de estar de volta à Holanda, continuasse a sentir isto com esta intensidade, iria tentar voltar. Pensei que o encantamento do “amor à primeira vista” por este magnífico país desaparecesse.
Mas as saudades e a vontade de querer voltar antes ficaram mais intensas, pelo que, um mês depois, elaborei um novo projeto. E fiquei imensamente feliz quando se lhe seguiu um convite para voltar.
Por isso regressei este ano (2011), novamente em março e abril. É uma belíssima estação, porque se chega e ainda está um pouco frio e logo começa tudo a florescer e a paisagem fica mais verde de dia para dia. As primeiras folhas são de um verde incrivelmente intenso! Em seguida, as flores começam lentamente a abrir e os prados adquirem a cor amarela das flores, as aves cantam e a relva cresce até à altura do joelho e, durante o dia, a temperatura já sobe bastante. É como se assistíssemos ao despertar da natureza do seu sono de inverno.
Claro que estava curiosa, ao voltar a Portugal, por saber como é que eu iria ver Portugal desta vez. E também como seria voltar a trabalhar neste local. Sentir-me-ia tão inspirada como da primeira vez?
Felizmente revelou-se ser um amor forte e duradouro. Desde o dia em que cruzei a fronteira de Portuga, já estava convencida de que este seria (novamente) um período muito importante para o meu trabalho e até para mim, em termos pessoais.
Ao chegar à Fundação OBRAS, senti-me como se estivesse a chegar a casa.
O mesmo no que respeita ao trabalho no meu ateliê: como já conhecia este espaço, já sabia como a luz entrava no estúdio (o que é muito importante para o pintor) e, ao fim de muito pouco tempo, sentia-me completamente em casa. Fiz uso, desde o primeiro momento, da totalidade da área do ateliê (ao contrário do primeiro ano).
Na primeira semana em que estive na Fundação OBRAS, tive a sorte de estarem previstos dois longos passeios, pelo que me deixei completamente inspirar pela natureza a despertar. Apenas alguns dias mais tarde, pude logo começar a desenhar e a pintar.
Passei alguns dias e tardes a pintar no meu ateliê português. É fantástico poder assim mergulhar no trabalho, poder finalmente encher os dias com pintura, passeio, fotografia e redação de textos.
Pintura
Após recolher inspiração e fotografias durante a primeira semana, nos passeios, comecei a desenhar. Na verdade, ao fim de dois ou três dias já tinha feito esboços para as três telas maiores que consegui transportar no meu carro: 100 x 140 cm.
Uma dos quadros de grande dimensão foi inspirada pelo Ribeiro São Brás, que passa ali perto da residência. Comecei a estruturar a pintura apenas com verde e azul; ficou completamente diferente das pinturas que tinha feito no ano passado, inspirada por este mesmo ribeiro. Para ser mais exata: ainda mais livre e abstrata do que no ano anterior (isto também é válido para as telas de pequeno formato). Este rio é um tema bonito, porque na verdade bastam as linhas fundamentais para se evocar uma referência a uma representação figurativa. Enquanto pintora, isso dá-me uma grande liberdade e o difícil nessas imensas possibilidades é não me perder no meio delas…
Durante as semanas, em que aqui trabalhei, passei tanto tempo no estúdio que consegui pintar os quadros que acima descrevi, mas também pude continuar a trabalhar nos meus quadros a preto e branco, inspirada pelos rios quase negros, com as anémonas de água brancas que cresciam no curso de água. Mas também na pintura dos bosques escuros, onde a forte luz do sol penetra e a luz abre caminho. A luz abstrai as folhas e, por entre a forma figurativa das folhas, deixa surgir um rasto de luz que parece seduzir-nos para que entremos nas veredas do bosque, sem que saibamos onde nos conduzem.
Ainda pintei alguns quadros sem usar qualquer fotografia como base, apenas partindo de um esboço. Apenas como reação ao que acontece durante a pintura, a paisagem surge e emerge da tinta.
Azulejos
A mim, os azulejos, aqueles azulejos azuis e brancos feitos segundo a tradição lusa, sempre me inspiraram e intrigaram sobremaneira. Por todo o lado, por onde andei, analisei estes azulejos: em Lisboa, Sintra, Redondo, Estremoz e Ėvora.
Em seguida, sonhei com a possibilidade de eu própria os poder talvez fazer, como uma homenagem a esta tradição portuguesa e a tudo aquilo que Portugal já me proporcionou.
Com a ajuda de Ludger, Carolien e Luís conheci um verdadeiro mestre da cerâmica, o Mestre Chico, que foi tão amável que se prontificou a ajudar-me. Eu gostava de fazer três exemplares de azulejos do tamanho dos meus quadros pequenos (40 x 30 cm).
Quando se pinta em cerâmica, as cores da tinta são completamente diferentes das cores depois da cozedura. Por exemplo, a cor lilás com que pintei depois da cozedura escureceu e tornou-se na característica cor azul dos azulejos.
Inspirei-me em três fotografias que tirei num dos magníficos parques naturais de Sintra.
Em cada azulejo há um jogo diagonal diferente; em cada azulejo a luz abstrai as formas das árvores altas que, sem a força da luz, quase cerrariam as passagens por completo. A luz seduz-nos a entrar pelas veredas do bosque e quanto mais se penetra no bosque, mais escuro este se tornará.
Este período serviu ainda para me ocupar com a fotografia enquanto meio autónomo e não apenas como esboços para as minhas pinturas. Mandei imprimir oito fotografias em Évora que foram tiradas aqui em Portugal.
Serigrafias
Fiz uma série de quatro serigrafias a partir de fotografias de Portugal do ano passado: duas serigrafias inspiradas pela Quinta da Regaleira em Sintra, uma pela natureza pura de Sintra e uma outra pelos jardins da Gulbenkian em Lisboa. Estas serigrafias começam por ser criadas a preto e dourado, culminando numa cor prateada muito suave. A maior parte das serigrafias consiste em quatro cores.
Estas imagens jogam com a perceção e o significado; superfícies que tanto são planas como parecem realistas, dependendo do movimento do espetador quando este se desloca junto das imagens. As cores prateadas alteram-se de superfícies fechadas, planas para formas figurativas e realistas. Este ano também selecionei fotografias da Quinta da Regaleira e do jardim do Palácio da Pena (ambos em Sintra), deste período em que aqui trabalhei, para servirem de base a novas serigrafias. Hei de imprimir estas serigrafias nos Países Baixos para dar continuidade a esta série.
As minhas estadias em Portugal, quer neste ano de 2011, quer no ano passado, foram extremamente importantes para o desenvolvimento do meu trabalho. Descobri que o verde e o azul são cores importantes na minha pintura e surgiram quadros a preto e azul que eu nunca antes tinha pintado e que provavelmente nunca pintaria sem estes períodos passados em Portugal a trabalhar. Até mesmo a possibilidade de ter tempo para fazer experiências no ateliê e a possibilidade de dedicar o dia inteiro à pintura, em total concentração, acelera o desenvolvimento e confere profundidade ao meu trabalho.
Ao fazer os azulejos (segundo a tradição portuguesa), ao reconduzi-los (com o maior respeito) à minha própria linguagem imagética e ao pintá-los com a tinta tradicional à base dos pigmentos portugueses, desta forma especial, artesanal, criou-se toda uma nova orientação no meu trabalho. Gostaria muito de, no futuro, ter a possibilidade de aprofundar mais e melhor esta técnica.
Foi, em suma, uma experiência fantástica. Trabalhei dias inteiros a fio e valeu muito a pena poder estar fechada durante um mês e poder desenvolver diretamente novas ideias; isto é uma mais-valia espantosa.
E mais ainda… Tenho a sensação de que ainda estou agora a começar a deixar-me inspirar pelo belo Portugal…
Ingrid Simons
Evoramonte, Portugal, abril 2011
PS
Já (2015) eu estou para a sexta vez no belo Alentejo será permitido voltar e eu deve fazer aqui no Museu Artesanato e o Design, Ėvora, minha quarta exposição individual, que chama “O azul do Alentejo sob o meu olhar”, com meus obras cerâmicos foram feitas em Portugal.
Ao mesmo tempo, apresentar uma visão geral das pinturas e impressões de tela dos últimos anos, o que eu fiz aqui no Alentejo. A exposição que chama “Raios de Luz” é apresentado pelo Museu Municipal Prof. Joaquim Vermelho em Estremoz.
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Inauguracao exposicao “A luz da lua, visao sobre o invisivel” de Ingrid Simons, Igreja de Sao Vicente de Evora
27 de Marco de 2010
Drs. A. Schaeffers, Chefe da Seccao Cultural e de Imprensa, Embaixada do Reino dos Paises Baixos :
“É uma honra e um prazer poder inaugurar, neste magnífico cenário – esta igreja lindíssima nesta cidade de uma beleza singular –, a exposição da minha compatriota Ingrid Simons.
Congratulo-me pela excelente colaboração, já de há muitos anos, entre a Câmara de Évora e a Fundação Obras, sempre em perfeita simbiose
concebendo iniciativas que enaltecem o espírito e promovem a dinâmica cultural entre Portugal e, entre outros, Holanda.
Ingrid Simons foi já por duas vezes nomeada para o prestigiado galardão holandês ‘Prémio Real de Pintura Livre’. Não surpreende: os quadros da Ingrid parecem possuir uma força quase sobrenatural, pelo menos é essa a minha impressão: sabem falar e até acenar! E se não é falar, pelo menos sabem sussurrar ao ouvido: – Vem, vem – , atraindo o espectador com um misto de beleza e mistério. O espectador não resiste, sai do seu cómodo lugar e eis que entra no mundo do quadro, com a maior das facilidades aliás, pois o próprio quadro ajuda, indicando o caminho.
O desconforto vem só a seguir, uma vez chegado ao destino: uma espécie de limbo, um espaço gélido, algo horripilante, intemporal e feito de dualismos: preto e branco, luz e trevas, sol e lua. O espectador está preso, cativado, mas não está só. A prova disso surge quando a artista, de repente, dá sinal de vida e, tal como na auto-estrada quando em excesso de velocidade, activa o flash do radar: a radiografia da condição humana foi posta a nu, o espectador encontra-se entregue a si mesmo, e ao desafio de se interrogar sobre os seus limites.
– As mais belas flores vivem à beira do abismo – é uma expressão que fascina a artista. E os quadros de Ingrid Simons servem de isco para chamar, com subtileza, o espectador até lá, até ao limite da realidade: – Vem, atreve-te, está aqui escondido o mistério da criação humana! –
Caros presentes, não desanimem: há clemência, afinal! A obra da artista tem evoluído, revelando, recentemente, mais desenvoltura e atrevimento. A artista leva-nos com mais firmeza pela mão, sem medo das vertigens, mostrando-nos que os aparentes contrastes – preto e branco, luz e trevas, sol e lua – são, na verdade, um todo: cada metade representa em si o preto e o branco, a luz e a escuridão, vida e morte, Deus e Demónio. O preto e – como Newton demonstrou – o branco guardam dentro de si todas as cores do arco-íris: as mais belas flores encontram-se lá, de facto! E assim, a obra de Ingrid não fala de contrastes, mas sim, de relações, de relações entre a artista, a obra, o espectador e o seu meio. É uma homenagem ao ‘wonderful world’ em que todos vivemos.
Certamente as paisagens misteriosas do Alentejo formam uma inesgotável fonte de inspiração para os artistas e os apreciadores de arte. Faço votos para que a Câmara de Évora e a Fundação Obras continuem, com tanta generosidade e competência, a disponibilizar os seus recursos para que as artes possam sempre continuar a florescer e a enriquecer!
Por fim: A deusa hindu Kali encarna a ideia de que a criação e a destruição estão intimamente interligadas, que dependem uma da outra para poderem evoluir e que só assim, de facto, o ciclo da vida se completa. Fiel a este pensamento hindu, que para completar o ciclo natural das coisas, também determina que um discurso não existe sem brinde, convido-vos a brindar a esta estreia de Ingrid Simons em Portugal. Votos de muitas felicidades a todos!”
© Anke Schaeffers, Marco 2010
Fundação OBRAS é o iniciador desta exposição. Foi organizada em estreita colaboração com o departamento de cultura da Câmara Municipal de Évora.